segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Como se fala?

Por Larissa Araújo


   Peculiar. É assim que descrevo o jeitinho português, porque às vezes tenho a certeza de que falamos línguas diferentes. Certo dia numa delicatessen, eu queria encomendar uma torta para uma festinha de aniversário, mas para a minha surpresa, não havia tortas. Ah, mas bolo de aniversário, sim! (Pausa para respirar). Achei que a confusão pararia por ai, mas não é que o bolo dá trabalho? Uma colega de intercâmbio também queria um bolo, dessa vez no café da universidade, eis que ela pergunta quais os sabores de bolo que tinha lá e não haveria resposta melhor: “Não sei, não como bolos”. Juro que se eu estivesse lá na hora eu ia rir muito, como assim? As perguntas por aqui tem que ser muito diretas ou talvez não nos façamos entender. 
   No Porto, ah, o Porto! Eu e uma colega procurávamos pelo supermercado, paramos um casal e perguntamos. A resposta? Já devíamos imaginar algo parecido: “Pingo doce nessa rua? Acho que não há, mas há um naquela rua lá”. Tudo porque perguntei onde tinha um Pingo Doce “por aqui”. 
   Consertar algo? Jamais, aqui tudo é reparado ou jogado fora, ops, eu falei jogar? Errado. Deitar fora. Estranho, não? Mas não para por ai, pergunta a um adolescente a idade dele, certamente ele terá dezasseis, dezassete ou talvez dezanove! Nas boates (não, discotecas) a “perca” do cartão implica em multa e o Chopp não existe, se quiser um, peça por um fino. As cuecas servem para homens e mulheres, as blusas são camisolas e as camisas são T-shirts. T-shirts? Vai enteder. 
   Complicado mesmo é pedir um café. Pingo direto, cheio, galão, curto, o que aconteceu com a média? E ele é servido numa chávena. Chique, hein? Ir ao supermercado é descobrir novas palavras: meu querido presunto não é presunto, é fiambre. A pasta/creme dental é dentrífica (que palavra interessante) e o lenço é “húmido”. O açougue é talho, banheiro é casa de banho, geladeira é frigorífico, vaso sanitário é sanita, sorvete é gelado, abacaxi é ananás, suco é sumo e eles quase não usam liquidificador. Os meninos são miúdos, os moleques são putos, as moças são raparigas, os rapazes são gajos e tudo que é bonito é giro. Se pá, outra língua. 
   Aqui ninguém entende, todo mundo percebe, estás a perceber e nunca percebendo. Por ou colocar também não é comum, aqui “mete-se”, mete isso aqui, mete isso acolá. “Caralho” serve como vírgula, exclamação, ponto final, etc. Está para o português como “porra” está para o baiano. Ônibus é autocarro, metrô é metro e comboio é trem, se quer descer no próximo ponto, é a próxima paragem. Atravessar a rua tem que ser na faixa! Errado, é na passadeira e por falar em trânsito, como dirigem mal por aqui, quer dizer, estacionam mal. Já vi muitos carros estacionados metade na vaga e a outra na calçada ou na rua mesmo, no meio do caminho.
   Por aqui o maior também é maior, mas o menor, ah, esse é mais pequeno! Estás a ver? As nossas línguas são irmãs, mas não são as mesmas, se calhar não falamos Português e sim Brasileiro. 

domingo, 18 de dezembro de 2011

Depois de Portugal, antes da Espanha..

 Por Taiane Nazaré

Última parada ao Norte de Portugal. Se pegar um autocarro pra qualquer cidade em direção acima do Tejo, um longo cochilo e pode terminar em Bragança. Ouve-se por aí, que alguns políticos em Lisboa nem consideram Bragança parte de Portugal. Mas isso é política, outro papo!  
Primeira a ter título de cidade, Bragança é cheia de tradições. Com divertidos e estranhos costumes. Quando lia as crônicas do Mario Prata sobre a vida em Portugal, achava engraçada a forma como ele caracterizava os portugueses e seu jeito extrovertido em descrevê-los. Hoje, enxergo os portugueses mais ou menos assim. Pra não levar tudo tão a sério. Mais isso é outro texto, outra história.
Cidade histórica, fronteira com a Espanha, (há menos de uma hora de Zamora). Bragança é cercada de pequenas aldeias e vilas. Com apenas 25 mil habitantes no perímetro urbano, é considerado o maior distrito da região de Traz-os-Montes, como é conhecido esse sítio. Português brigantino é diferente de qualquer outro português. Sotaque carregado, bem mais forte que os estereótipos das telenovelas brasileiras. Sua população tem uma quantidade significativa de idosos – (Mais de 6.802, segundo o Censo de 2001). São também as poucas pessoas que pegam autocarros nessa cidade. Fora os idosos, todos fazem tudo a pé. Em Bragança não precisa de transporte. Ir para faculdade, hospital, biblioteca, teatro e discotecas. Pra tudo se chega andando. Devagar e sempre.

Castelo de Bragança localizado no centro histórico da cidade. Foto: Anna Luiza 

Trabalho de português
Em Bragança, por sinal, estereótipo é pura verdade. Falam alto, só eles se entendem, dão nomes estranhos para as coisas, complicam o que poderia ser simples e ainda querem confundir o que já está resolvido. Só respondem ao pé da letra o que se pergunta: -Tem horas? – Sim.
Quando pedir uma informação de onde ir, ou onde fica tal lugar a um português, se ele ousar ter dúvida, desista e passe pro próximo. Ele também não sabe e ainda pode te deixar mais confuso. Para eles tudo é lógico: “lógico que sim! - lógico que não! - lógico que vai!..”.  Mas, português toma banho?(me recuso a responder). Gostam de festa com muita comida, família sempre reunida, vizinhos e quem for bem-vindo, pode chegando. A comida nunca acaba. Com suas boinas típicas, blusas xadrez e um pacote de pão embaixo do braço, sempre. Maioria, católica, tem costumes de ir à missa aos domingos e as viúvas andam de preto o resto da vida.
Pouco texto para muitas situações engraçadas que você pode se deparar em Bragança. Mas, calma, ainda há tempo para aprender e conhecer dos brigantinos e seu jeitinho português de viver.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Do lado de cá...

Chegamos. Um pouco tarde, mas chegamos. Três meses e parece que já vivemos muito e aprendemos um tanto de tudo. A cada dia, uma novidade, alguém pra conhecer, um palavrão novo pra aprender em outro idioma. É tudo tão diferente e novo que não temos tempo pra perder. Por isso, depois de longas conversas, muita enrolação e um pouco de ócio, abrimos um blog pra contar as experiências de viver em intercâmbio na Europa.
Aqui, vamos exibir um ano de conteúdo sobre arte, pessoas, música e modos de viver.  Cultura em todas as formas e sentidos. Ao longo de nossa estadia em Portugal, queremos aproximar nossos amigos e pessoas que tenham interesse de conhecer o povo português e seu jeito peculiar de viver.
 Antes que me esqueça, essa é uma produção dupla. Junto com minha amiga e companheira de viagem, Lari, queremos compartilhar nossos sentimentos e olhares em um só lugar. Além de Portugal, queremos dividir as descobertas e dificuldades de mochilar pelo velho mundo. Algumas viagens já começaram e não queremos perder nenhum detalhe. Então,  “Anda cá”, e vem conhecer tudo que Portugal, a Europa, um outro mundo pode te oferecer. Bem-vindo!



Muitos pastéis de nata ainda virão!